Izolina Maria Oliveira: serenidade secular

Redação DS 17/03/2018 Memória
Memória

Izolina Maria de Oliveira, natural de Itanhomi - MG, nascida em 15/08/1920, na ressaca da primeira grande guerra. Neta de escravos. Relatou que seus pais, para não serem capturados e vendidos, passaram parte da infância escondidos no mato. De família muito pobre, considerada a primeira geração sob a égide da Lei Áurea, e dos primeiros passos da recém-nascida República oligárquica. Não alfabetizada. Casou-se aos 15 anos, no preâmbulo da segunda grande guerra. Viúva aos 25 anos, no ápice do segundo conflito bélico considerado mundial do século. Não mais casou. Mãe de 05 filhos, três mulheres e dois homens (Amilton, Romualdo, Lucia Helena, Maria Helena e Valdenice); três moram em Tangará e região; de dois não têm notícia há algum tempo. Já possui netos e bisnetos. Faltando 29 meses para completar um século de vida, suas palavras fluem com a sabedoria do tempo e a naturalidade de sua companheira – a memória – que, por vezes, eletiva, parcial em acontecimentos considerados trágicos, em especial aos momentos de luta pela vida, pela sobrevivência, onde a exatidão ganha contornos épicos de natureza seletiva, ressignificando a busca por alimentos, abrigo.
Enquanto fonte, suas narrativas são marcadas pela sabedoria derivada da luta pela vida, pela sobrevivência. Desistir, jamais! Sua saúde deriva da alimentação natural e da graça de Deus. Os medicamentos que toma, em suas palavras, são para coisas que vem com a idade: hipertensão e colesterol.  Cuida da casa em que mora sozinha.

O mundo como certeza

Após a morte do cônjuge, juntamente com outras famílias, foi para o estado do Paraná. Em seguida, na segunda marcha para o oeste (PDN 2) veio para Poxoréu – MT, onde, por força das circunstâncias socioeconômicas, no final da década de 60, saiu, com seus cinco filhos, em um caminhão que transportava leite e para não ser vista,  e não ser obrigada a descer da carga com a prole, ficou embaixo de uma lona durante o percurso até Cuiabá – MT, onde, em seguida, embarcou em um ônibus com destino a Tangará da Serra, da qual só conheciam histórias e estórias. Porém, ao chegar a Serra Tapirapuã, tiveram que fazer o percurso a pé. Carros não conseguiam subir a serra por causa da chuvarada e atoleiros quase intransponíveis.
Em 1971, segundo relato da filha Maria Helena, à época, criança, chegaram ao córrego Estaca, nas proximidades da Vila Goiânia, onde fixaram residência. Sua mãe lavrou a madeira, colheu folhas de coqueiro e de sapê para, respectivamente, armar, cercar e cobrir a casa precária. “Naquela localidade só tinham três casinhas, não tinha mais nada”, relata.
Dona Izolina, inicialmente, se ocupou com afazeres domésticos, trabalhando em algumas casas, como lavadeira, cozinheira. “O pagamento era parte em dinheiro, parte em alimentos”. Trabalhou no hotel Real, da Dona Nena, como lavadeira e depois como cozinheira.
Considerado um lugar de poucas oportunidades, e a certeza de que não voltaria para trás, conviveu com a solidão, com alguns medos materiais que, em suas palavras, foi substituída pelo trabalho. “Para comer e criar meus filhos, trabalhei na (colheita) poaia. Nas terras do Wilson Galli plantei arroz, feijão e milho. Na região do Córrego das Pedras, trabalhei na colheita de café. Eu fazia a nossa casa de pau-a-pique e cobria com folhas de coqueiro. Nesses lugares tinha muito bicho nas matas para a caça. Tinha onça”. Relatou ainda que, em uma dessas muitas idas e vindas cultivando em terras alheias, chegou em uma área recém derrubada que o fogo não queimou; teve que fazer todo o serviço no machado e na foice para que o solo ficasse pronto para o plantio.

A necessidade construindo saberes

Segundo Izolina, a não escolarização não foi obstáculo em seu percurso, pois, “quem tem boca vai a Roma,” não passa apuros para conseguir o que precisa. Basta saber perguntar, buscar informações e saber aonde ir para resolver os problemas. Relata que encaminhou os filhos para a escola, onde foram alfabetizados.

O pássaro gigante

Dentre as historias e estórias que ouviu no Estado do Paraná, destaca a narrativa que versava sobre um gavião tão grande e de garras afiadas que ataca pessoas e come crianças, e para se proteger dessa ave, as pessoas tinham que usar uma cuia na cabeça. Pois, essa cuia impediria suas garras de cravar na cabeça. Segundo ela, estórias dessa natureza eram contadas para dissuadir as pessoas de virem ara Tangará. Isso não foi suficiente para dissuadi-la.

A sabedoria popular a serviço da vida

Em seus relatos, Dona Izolina contou que deu à luz aos seus filhos, sem ajuda médica ou de parteira, seguindo os ensinamentos populares, herdados da mãe. Aprendeu a manipular a natureza, de onde tirou os meios necessários para cuidar de sua saúde, familiares e a quem desses conhecimentos precisassem.
Adepta de chás naturais para tratamento de saúde. Sempre cautelosa com as palavras afirma que com fé ajudou a curar crianças e adultos, conforme dom de Deus. Considera sua missão cumprida. Segundo ela, a cura não está na reza; é fruto da fé.

Seu modo de vida e seu legado

Matriarcal, por circunstância. Izolina Maria é uma mulher que conversa pensando. Elegante em sua organização verbal, trata sua travessia pela vida como a brisa à flor, com recortes precisos sobre a bravura de uma mulher que atravessou o século XX lutando pela subsistência e, se visível ou não, contribuiu para a construção das riquezas deste Município, desta Nação. Enquanto realização, filhos ao mundo permaneça na periferia, morando de aluguel.
Ao longo de sua travessia, ensinou e aprendeu, compreendeu e buscou respostas. Encara como contínuo recomeço. Valoriza a paz e o respeito. Em suma, os bens materiais são efêmeros; a vida é preciosa.

Iolanda Garcia
Rodney Garcia

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