Zé dentista: trajeto e segredos políticos de Tangará

Iolanda Garcia / Rodney Garcia 18/10/2018 Memória
Memória

Em busca do sonho
José Pereira de Souza, popular Zé Dentista, natural de Imbé (MG), com 88 anos (12/09/1930), chegou a Tangará da Serra – MT, em 24 de agosto de 1968, em um total de 30 pessoas, sendo 17 seus familiares. Ao todo, vieram cinco famílias. Dentista prático, aqui se dedicou à extração, restauração de dente e fabricação de prótese dentária (dentadura). Acompanhou e participou da vida política de Tangará da Serra. Criou as seis filhas e o filho caçula. Oito netos e cinco bisnetos. Casado a 61 anos com Alzira Pereira de Souza, sua companheira de todos os momentos. Aqui, enfrentou e venceu as intempéries do tempo, da política e da politicalha, da saúde e da profissão.
Antes de mudar para Tangará da Serra, o senhor José Pereira relata que esteve aqui em 1966 onde permaneceu oito dias, oportunidade em que conheceu Joaquim Aderaldo a quem considera fundador. Relata que tinha ônibus de Cuiabá à Arenápolis; de Arenápolis até aqui, gastou três dias, entre uma e outra carona.  Em suas palavras “Joaquim Aderaldo foi um dos primeiros moradores e está registrado em pesquisas que o primeiro carro que subiu a serra era dele. O colonizador foi Antônio Hortolani, que veio ver quase toda área, depois, veio Antônio Bueno, que ficou à frente da SITA – Sociedade Imobiliária Tupã para Agricultura – que adquiriu parte da Gleba Santa Fé e em 1965,  registrou um loteamento de 168 quadras para oficializar a urbanização iniciada em 1959”.
O nome precede o 
homem: a recepção
Quando o senhor José Pereira retornou para Minas Gerais, relata que conversou com a esposa Alzira, com o cunhado Antônio de Melo, e com sua mãe. Como bom mineiro, relatou que a mãe manifestou contrariedade em deixar sua terra natal e se aventurar em uma região que carecia de tudo. Ela, relatou o entrevistado, não colocou empecilhos à aventura dos demais. Dois anos depois, juntamente com mais quatro famílias, deixam o distrito de São Vicente do Rio Doce, município de Tarumirim (MG) rumo a Tangará da Serra – MT.  “Chegamos aqui no dia 24 de agosto de 1968. Fomos muito bem recebidos quando chegamos. Afinal, fizemos amigos quando estivemos aqui em 1966. E Já tinha notícia minha desses que vieram primeiro, que me conheciam de Minas, essa turma da Tubaína; o Zélio; o compadre Ismael; o Tarso; o Gabriel Ângelo; essa turma já me conhecia lá  de Minas Gerais, naquela época”.


A ocupação virando sobrenome: Zé Dentista

O senhor José Pereira adquiriu um lote na Rua São Paulo, na lateral do antigo Prédio da Prefeitura Municipal, onde fixou residência. Montou consultório odontológico na Rua Sebastião Barreto (antiga rua 8), popularmente conhecida como rua dos bêbados, bem próximo à Avenida Brasil, meio lote urbano que foi de sua propriedade. “Atuei por mais de 50 anos como dentista prático e protético, aqui em Tangará da Serra por quase 40 anos”. De acordo com o entrevistado, ele foi um dos primeiros dentistas práticos a se instalar em Tangará da Serra. Quanto ao número de pessoas atendidas por dia, o entrevistado declarou que “eu não tinha hora de atender; não tinha hora para levantar; não tinha hora para almoçar e não tinha hora para deitar. Já fui chamado na casa clientes, como o caso do ex-prefeito Antônio Porfirio de Brito, para extrair dentes cariados e infeccionados de seus funcionários, altas horas da noite. Fiz isso umas três vezes para ele, depois parei, era só no consultório. Tinha outro que tocava lavoura aqui no Bandeirante, atendi duas vezes, à noite, alumiando com o farolete para eu anestesiar e tirar o dente”. 
Zé Dentista relatou que era costumeiro ir às fazendas atender as pessoas. Para ganhar tempo, por vezes, ficava mais de um dia no local, até atender a demanda. Em muitas de suas idas, Alzira, sua esposa, reclamava da quantidade de pessoas que o procuravam fora da agenda em busca de seus serviços. Ele afirma nunca descumpriu compromisso ou agenda, pois, “Se eu não gosto de esperar e de receber calote, também faço o mesmo como meus compromissos. Sempre cuidei da minha agenda. Só tenho uma palavra. Não sou homem de duas palavras”. 
Quanto aos materiais usados nos procedimentos odontológicos e protéticos, os mesmos eram buscados em Cuiabá – MT. O senhor Zé Dentista afirmou que ia à capital  porque aqui no tinha telefone e ele não conhecia os fornecedores. “Depois que chegou o telefone, e os fornecedores já me conheciam, eu pedia o material e eles mandavam. Mas, antes eu ia a Cuiabá...  eram três dias para ir e voltar: eram dois de ida e volta e um  para comprar e pagar. Tinha mês que eu ia duas vezes.”
O senhor Zé Dentista afirma que, com a chegada dos primeiros profissionais habilitados, passou a enfrentar pressões para que sua atividade profissional fosse encerrada. Essa situação, em seus termos, foi o resto do tempo trabalhando e brigando. “Eles tinham os direitos deles, mas eu também tinha porque tinha minha família para tratar. E isso me assustava, me entristecia. Eu ficava desafinado, ou passava sem comer, eu passava sem dormir e pensava assim, eu morro mas não paro de trabalhar. Eu não estou roubando, não estou matando. E aí eu continuei exercendo a profissão. Foi a minha vida toda. Chegou um tempo que parei com a clínica, parei com tudo”.


Bastidores da política local

Conforme relatos do entrevistado, Tangará da Serra, à época, tinha dois grupos políticos  (Arena 1 e Arena 2) que almejavam o poder municipal, com sede no Município de Barra do Bugres. Tangará da Serra e Nova Olímpia constituíam território daquele município.  Assim que chegou, o senhor José Pereira, através do amigo Antônio Hortolani, apoiou José Amando ao cargo de prefeito, vindo a ser eleito e a exercer o cargo no período de 1968 a 1972. 
Quando da disputa para o pleito seguinte (1972), o grupo de ‘Zé Amando’ apoiou Antônio Porfirio de Brito para prefeito, de Tangará da Serra, e seu vice, de Barra do Bugres. Seu amigo, vereador Antônio Hortolani, estava apoiando Sansão, de Barra do Bugres, e seu vice, Capucho, de Tangará da Serra.  Nessa época, Zé Dentista já era conhecido na cidade pelos serviços prestados. Passou a ter peso político. Assumiu compromisso com o candidato apoiado pelo amigo e isso contrariou interesses do grupo local, que em seus termos, resultou em sequestro e intimidação por parte do grupo não apoiado. “O tom da conversa era de que eu, o Antônio de Mello e o Antônio Hortolani estávamos contra a emancipação político administrativa de Tangará da Serra. Tentaram me intimidar, coagir; queriam correr comigo daqui. Disseram que se o Porfírio perdesse, eles pegariam minha mudança, colocariam em cima do caminhão, com a família, para voltar para trás; de qualquer forma eu ia embora de Tangará. Sou da paz. Não tenho medo. Aqui estou, com minha família a cinquenta anos”.


Das considerações e das contribuições

Passadas as intempéries e realizações, o senhor José Pereira, meio século de contribuição para Tangará da Serra, não ficou rico, mas, em seus termos, ajudou muita gente a ter saúde. “Só sabe o que é sofrer com dor de dente, quem tem um dente infeccionado.” Sua herança para os filhos são os valores que nortearam a educação familiar oferecida. Declarou que, à época, contribuiu e promoveu mudanças que resultaram na atual Tangará da Serra. Mais que trabalho como dentista prático, militante político ou juiz de paz, seus princípios e sua religiosidade constituem seu melhor patrimônio.
 



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