Seu “Bidia”: em busca da terra prometida

Iolanda Garcia / Rodney Garcia 03/08/2018 Memória
Memória

ÊXODOS 
A história de Algenor José da Silva, popular Abdia ou Bidia, começa com os trajetos de seus pais: dona Maria Rosa da Conceição e Manoel Gregório da Silva (in memorian), como outras tantas famílias, aventuraram em busca de um local que lhes oportunizasse melhores condições de vida que a levada no sertão baiano. Migraram para o interior de São Paulo na década de 40, morando na cidade de Martinópolis, e, na década seguinte, aventuraram em solo paranaense, na região de Santo Ignácio. No final da década de 50, rumaram para o Sul de Mato Grosso, Campo Grande. De lá, para Tangará da Serra em 1963, e daqui para o município de Mirassol d’Oeste, onde permaneceram cinco meses e, em seguida, retornarem para cá, onde fincaram raízes. 

RETIRANTES: MIRAGENS E TRAVESSIAS
Natural de Mucugê – BA, no auge de seus quase 88 anos (16/10/1930), seu Abdias, não alfabetizado de pai e mãe, passou a infância e a juventude fugindo da fome, da seca, do frio, da exploração de maus patrões. Até que, acompanhando os familiares, aos 30 anos de idade, na zona rural do município de Campo Grande, conhece Zélia Ferreira da Silva, nove anos mais jovem (25/12/1939), paulista, e casam em 16/06/1961. Sua leal companheira em todos os momentos de luta pela vida, pela qualidade de vida. Tiveram quatro filhos, seis netos e sete bisnetos.
As constantes idas e vindas da família foram assim narradas por seu Abdias:
“- Quando viemos para Martinópolis-SP, eu tinha 18 anos. Permanecemos lá por três anos.  E de lá, fomos para o Paraná, onde  permanecemos nove anos, perto de Santo Ignácio. A gente fazia uma rocinha de nada nas terras de seus fulanos, de seus cicranos. Tocava um ano aqui; outro ano mais lá frente. E foi indo assim ...Nós tínhamos umas coisinhas de nada; e por ali foi indo, assim, até não ‘tê’ mais nada”.
Depois desse período no eixo sudeste-sul, seu tio – o Zé Baiano – veio para Campo Grande, e, através de carta, “convenceu meu pai a ir para lá. Eles eram muito ligados”. Seu Abdias conta que seu pai o mandou na frente para comprar um lote e assim ele fez. Porém, seu pai “ficou lá pisando”, não querendo vir. Acabaram por vir. Segundo seus relatos, depois de quase três anos em Campo Grande, seus pais vieram para Tangará da Serra em 1963. Já casado, seu Abdias, juntamente com a esposa e um filho recém-nascido, acompanhou a família paterna.

A serra e o vir a ser Tangará

Uma particularidade que marcou a chegada da família em Tangará da Serra foi a subida da Serra Tapirapuã. Segundo o narrador, tinha hora que parecia que o caminhão ia tombar: “Nós não morremos foi mesmo por Deus... A gente quase morreu de medo”. Relata que estrada era estreita e o caminhão, para não escorregar e nem ficar atolado, os homens iam colocando pedras para calçar os pneus. “Só as crianças e os velhos é que ficaram dentro do caminhão na hora de subir a serra.”
Em Tangará da Serra-MT permaneceram alguns dias e, de novo, acompanhando o tio, “arribaram” pra Mirassol d’Oeste, onde permaneceram por cinco meses. Fecharam o barraco, deixando o pouco que tinham, e “rumaram” para Tangará da Serra.  Dona Zélia conta que foi uma das primeiras a se recusar a ficar naquele local: “Se você quiser ficar, fique. Eu estou voltando para Tangará.” Assim fizeram. Aqui chegando, compraram um lote urbano na rua 17, próximo à rodoviária.  
Aqui, seus pais compraram um pedaço de chão, onde trabalham por algum tempo. Mediante doença, tiveram que desfazer do mesmo para investir na recuperação da saúde paterna. Não logrando êxito no restabelecimento da saúde do patriarca, coube ao seu Abdias cuidar da mãe, dos irmãos, da esposa e dos três filhos. Como ele mesmo fala: “onde come um, come dez”. E, em seus termos, “Com a graça de Deus, nunca deixei ninguém passar fome”.  
O senhor Abdias afirma que quando aqui chegou em 1963, tinha somente quatro casas, um armazém, uma farmácia, a do Erotilde, o primeiro farmacêutico e, posteriormente a farmácia do Zé Luiz Barrigudo. Ele conseguiu um pedaço de terra, próximo onde hoje funciona o aeroporto municipal, na qual trabalhou até ao final da década de 60, quando teve que dispô-la para tratar de um filho, acometido pela suposta febre amarela. 

Amansador de mato

Quanto à fonte de renda, o velho “Bidia” a tirava da terra, trabalhando em lavoura branca; cultivando mandioca e fazendo farinha. “Meu filho, eu e minha velha, fizemos muita farinha nesse Tangará da Serra”. Roçando e derrubando mata, onde, muitas vezes, deparou com árvores enormes, como jatobás, figueiras e barrigudas. Segundo ele, foi preciso o trabalho de quatro homens para derrubar uma figueira em um dia e meio: “a árvore era muito grande. A gente cortava, cortava e nada da árvore cair. Faltava um pedacinho de nada para decepar e nada de vento. A gente não podia sair de perto; vai que dava um vento e ela viria para cima da gente. O jeito era ficar por perto esperando um sopro de Deus para a árvore cair... Assim, foi um ventinho de nada e a árvore caiu”. Segundo ele, a camisa fina, farinha branca ou acerta conta, também conhecida por angico, era uma das árvores mais difíceis de derrubar: seu caule era muito resistente. “Mesmo em uma árvore fina, a gente ‘suava’ para dar conta do recado.” O nome popular dado à árvore da família Fabaceae – acerta conta – deriva de duas situações: peão ruim de serviço era mandado derrubar esse tipo de árvore; ele não conseguia executar a tarefa e, com vergonha, pedia as contas no final do dia. A segunda, os mais experientes no machado a empurravam para os novatos, como que um batismo.
Trabalhou na derrubada de mata em muitas fazendas, dentre elas, a fazenda Bahia; em glebas, como a Aurora. Com isso, não teve como manter os filhos estudando. Para cada fazenda que ia trabalhar, levava a família inteira: os filhos maiores ajudavam na cozinha ou iam para o mato, trabalhar. 
DAS REALIZAÇÕES
Dos cinquenta e cinco anos dedicados a Tangará da Serra, seu Abdias, ou velho “Bidia”, construiu uma casinha de alvenaria em um terreno de 450 m2, onde reside; criou três filhos, seis netos e sete bisnetos. Fala, com entusiasmo, de ter participado na construção da igreja matriz Nossa Senhora Aparecida, ajudando a cavar sua fundação; e da Prefeitura, onde trabalhou como prestador de serviços, batendo massa, concretando.  Perguntado se o mesmo tivesse saúde e pudesse fazer tudo de novo, o mesmo respondeu que a sua vontade é estar dentro do lote até agora, “mas, Deus não quis, o que eu vou fazer?”. 



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